Trabalho

(agosto 2008)

Quanto custa sua identidade profissional?

- É bem comum em algum momento da vida profissional sentir-se uma farsa. Achar que não se sabe nada de nada e ficar ansioso com a possibilidade de alguém descobrir que você toma decisões baseado na última consulta com sua taróloga. Os casos patológicos têm até nome: síndrome do impostor. Basicamente, é quando alguém não reconhece suas habilidades e vive na ansiedade de que será desmascarado em sua total e absoluta ignorância no que faz. No meu caso, eu realmente era uma farsa. Foi tudo muito rápido. Num dia eu estava sentado em frente a um computador, masturbando conceitos abstratos no mundo das idéias, e no outro estava correndo para levar 3 pratos quentes para uma mesa. E nenhum deles era para mim. Eu não tinha a menor idéia do que estava fazendo, mas estava mais feliz que depressivo quando ouve Andriana Calcanhoto. Era meu primeiro emprego na Austrália. Já não era mais publicitário. Eu agora era garçon. O que eu ainda não sabia era que uma troca de profissão não pode ser vendida separadamente de uma troca de identidade.

- Problemas de briefings incompletos e campanhas desalinhadas já eram passado. Os desafios agora eram bem mais objetivos. Um episódio inesquecível foi o do dia que servi para um cliente uma Chicken Schnitzel. Já na primeira garfada ele fez sinal para mim e reclamou com cara feia que o frango estava muito duro. “Garçon, me faz um favor? Devolve esse prato pro chef e manda ele enfiar no c*.” Pois não, mister, respondi educado. Mas vai demorar uns 30 minutos porque tem um Fillet of Beef e um Seafood Risotto na sua frente.

- Uma estatística intrigante diz que cerca de 7 % dos australianos com menos de 64 anos tem incontinência urinária. Ou seja, a chance de um garçon se mijar enquanto serve sua comida é relativamente alta.

- Foi o capitalismo que trouxe a idéia de que somos o que fazemos para ganhar dinheiro. Quando perguntam “o que você faz?” a resposta sempre vem em forma de título profissional. Eu, então, sou garçon porque essa é minha fonte de renda. Quatro anos de faculdade, dois de pós-graduação e ainda assim carregando bandeja? Por quê? Porque desapeguei do ideal de que só é aceitável ganhar dinheiro exercendo minha profissão. E não estou sozinho. Muitos brasileiros que vêm para Sidney também têm que descer do pedestal imaculado de bacharel universitário. Ainda que fazendo cara de emergente quando vê favelado, a galera sua a camiseta em profissões com menos cabeça e mais tronco e membros. Faxineiro, pedreiro e ajudante de cozinha são algumas das ocupações mais populares. Cérebros mais ativos ficam enciumados quando braços e pernas passam a fazer a maior parte do trabalho, mas é SUPER IN no capitalismo líquido pós-moderno usar todas as partes do corpo para gerar renda, ainda que dizer uma coisa dessas soe bem malicioso.

- Conheci uma psicóloga que trabalha em Sidney limpando banheiro em um centro de eventos. Lidar com os dejetos de desconhecidos não é nenhuma novidade para ela. O que a surpreendeu foi o interessante conceito do Ofensive Job (trabalho ofensivo), que funciona assim: quando o faxineiro encontra uma casinha do banheiro toda cagada, ganha uma graninha extra por realizar o trabalho corajoso de ficar a um pano de distância do cocô alheio. Justíssimo! Proponho a implementação do O.J. (Ou Djei na abreviação em inglês) em todas as atividades profissionais. Ganharíamos todos um mercado de trabalho muito mais justo e higiênico.

- Um dos pedidos mais populares na fonte dos desejos é ganhar na loteria. Se acontecesse de verdade, todos os dias teriam sabor de strawberry cheesecake (ou qualquer que seja seu doce predileto). Uma fonte ilimitada de renda parece motivo suficiente para se pedir demissão, tamanha é a associação entre atividade profissional e dinheiro. Trabalhar para que, me diz, se o saldo bancário tem mais de 7 dígitos? Charles Bukowski respondeu bonito quando disse que é preciso matar dez horas para que duas vivam.

- O salário mínimo na Austrália é de aproximadamente R$ 818,00 (em agosto de 2008), quase o dobro dos R$ 415,00 do Brasil. O mais impressionante é que os 818 daqui são por semana. Aliás, o salário aqui é sempre medido por hora de trabalho, por semana ou por ano, nunca por mês. Esse valor corresponde à 38 horas de trabalho semanais, o que significa uns 21 reais por cada hora. Ainda que Sidney esteja em décimo sétimo lugar na lista das cidades mais caras do mundo, esse é a única situação em que as poupanças australianas são maiores do que as brasileiras.

- Outro dia tive uma indisposição estomacal durante o trabalho no valor de R$ 10,50.

- A Austrália está histérica com a falta de profissionais qualificados no mercado. O país está enfrentando uma crise de proporções Almodóvar. Uma em cada duas empresas afirmam que o maior obstáculo para o crescimento do negócio é falta de mão-de-obra. São 106 profissões, tanto de nível técnico quanto de nível universitário, na lista de ocupações em demanda para migração (Migration Occupations in Demand List).  A solução é pescar em mares internacionais. Alguns anos de experiência no mercado, inglês entre intermediário e avançado, nenhum problema grave de saúde ou pendências com a justiça e você já tem grandes chances de vir morar na Austrália sem ter que tocar no cocô de ninguém.

- A grande epidemia da síndrome do impostor foi desencadeada pela internet. Com oferta de informação 24 horas por dia, 7 dias por semana, aparentemente se tornou inaceitável não saber (ou querer saber) tudo sobre tudo pelo simples fato de que o mundo todo está disponível online. Você entra, inocente, em um site atrás de informações bem específicas e acaba sendo soterrado por uma avalanche de links que levam à sites que contém mais informações sobre o assunto, que também indicam links para outro sites que oferecem ainda mais links, numa interminável cadeia auto-explicativa. A ansiedade pelo não-conhecimento é proporcional ao número de links que se clica para “saber mais”, o que acaba levando à inevitável conclusão de que você sabe ainda menos do que pensava. Vem daí a sensação de que se é uma farsa. Neuroses da era virtual. Existe uma técnica simples para eliminar os sintomas da síndrome do impostor: mesmo que não tenha a menor idéia do que está falando ou fazendo, tenha sempre em mente o mantra “fake it till you make it”. É a idéia de que uma mentira dita várias vezes pode vir a ser interpretada como verdade mesmo por você. Aja com segurança e confiança, independentemente de conhecimento ou experiência. E para quem está iniciando na carreira de garçon, vale memorizar o clássico “faça de conta até que o cliente pague a conta”.

- Comparando os extratos das duas profissões que já exerci, fica evidente que servir me trouxe um retorno financeiro muito maior do que criar. Mas não gosto quando penso na possibilidade de, daqui há alguns anos, olhar para trás e perceber que investi tempo demais em uma ocupação onde eu não podia usar minhas melhores características e habilidades, ainda que eu tivesse uma tv flat screen na sala. Tem um dia que chega. O meu, decidi agora, é hoje. Estou retomando minha identidade de publicitário. Cansei de viver em preto e branco. Com licença. Vou procurar meus tênis coloridos.

2 Responses to "Trabalho"

  • Diego says:
  • ana cristina says:
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