Cheguei em Sidney aos 26 anos. Quando decidi vir para cá, criei várias expectativas de que morar no exterior fosse trazer respostas para algumas das minhas questões existenciais. Ao invés disso, Sidney me fez perguntas ainda mais cabeludas. Como reconfigurar a relação com a família depois de sair de casa? O que fazer quando se deixa de acreditar nas mentiras criadas para abafar traços inconvenientes da nossa personalidade? De quem são esses pés de galinha que estão aparecendo no meu rosto?
Em pouco mais de um mês, vou completar 30 anos e a sensação de ainda estar vivendo uma adolescência tardia já parece ridícula. Inconsequência, indecisão, rebeldia e ideais ultrapassados não combinam com cabelos brancos. Trinta anos é tempo suficiente para se descobrir o que se quer fazer da vida. De preferência, a essa altura, já se devia estar fazendo alguma coisa dela há um bom tempo atrás.
Chegar nessa idade sem ter nenhuma pista sobre o sentido disso tudo é, para mim, desconcertante. Qual é meu principal objetivo na vida? O que estou fazendo aqui? Que ônibus se pega para voltar para o centro?
Ainda bem que hoje em dia temos o Google, o psicólogo eletrônico da sociedade pós-moderna. Ao invés de horas investidas na construção de discursos cifrados no sofá de um profissional de saúde mental, basta digitar algumas palavras-chave para se receber orientação sobre o assunto.
Uma técnica interessante, sugerida no Anxiety Culture, permite a identificação do seu objetivo de vida deixando de lado pensamentos condicionados à necessidade de permissão e ao medo de desaprovação. A técnica consiste nos seguintes passos:
O objetivo da sua vida, diz o site, é a liga que une essas três respostas juntas. Ou seja, é o modo como você usa suas melhores características, habilidades e atributos em suas atividades favoritas com o objetivo de manifestar a sua visão de um mundo perfeito.
Isso não tem necessariamente a ver com sua atividade profissional. Tem a ver com a marca que você vai deixar no mundo. Abaixo, minha tentativa.
Qual o objetivo da minha vida, então? Proporcionar momentos de intenso prazer para meus amigos usando minhas mãos. Hum… Parece um tanto ousado, mas quem sou eu para duvidar do destino.
- Se eu tivesse escolha, comeria apenas algumas poucas vezes por semana. Nunca tive paciência com comida, nem para comer e muito menos para cozinhar. Há sempre outras prioridades na minha agenda. Parece absurdo e sensacionalista, mas houve dias em que fiz uma refeição e simplesmente esqueci das outras. Fui lembrado que era hora de comer novamente por uma fraqueza nas pernas ou uma dor de cabeça. Não gosto da idéia de investir meu tempo em algo que acaba sendo descartado horas depois em uma privada qualquer. Para economizar energia nesse processo, criei um grupo seleto de comidas favoritas. Meus amigos debocham dizendo que tenho paladar infantil, que só gosto de sabores divertidos e fáceis de entender. Há não muito tempo atrás eu só comia quando estava morrendo de fome e só bebia quando estava morrendo de sede. Isso ainda acontece de vez em quando, mas estou me esforçando para mudar. Um dia Sidney comentou que quem chega nesses extremos pode estar sofrendo de anorexia existencial. Sorte que o meu caso é bem mais simples. Meu apetite, quando se sente solitário, só funciona no modo de emergência.
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- Sidney é a décima quinta cidade mais cara do mundo para se viver e isso é visível no quanto se gasta em moradia. Estudantes internacionais geralmente optam por ficar em casa de família, em acomodação dividia/alugada ou acomodação universitária. Preços variam de 100 à 300 dólares por semana, sendo possível achar algo mais barato, fedido e super-populoso ou mais caro, perfumado e com alguns metros quadrados desocupados. Privacidade em Sidney custa caro.
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- Dois leoninos juntos é uma combinação explosiva. Essa é uma das poucas verdades esotéricas em que acredito. Quando decidi vir morar na Austrália, há mais de dois anos atrás, não sabia que Sidney era de leão. Isso ficou claro já no nosso primeiro encontro. A cidade chegou exuberante, usando um vestido decotado valorizando as praias e os pontos turísticos. Antes mesmo de se apresentar, ela se aproximou confiante e sussurrou no meu ouvido em tom provocativo obscenidades inimagináveis, coisas que ninguém espera ouvir de alguém que recém conheceu. Um legítimo convite VIP à luxúria. Não acredito em amor à primeira vista, pensei, mas quem sabe uma exceção à regra é o que preciso?! Então aceitei o convite e pequei. Como conseqüência, fui condenado a viver esse romance com Sidney até que eu desvende os seus porquês. É como uma versão pós-moderna do enigma da esfinge: decifra-me ou te devoro em ritmo fast-food, te vomito, faço um vídeo e coloco no youtube. Bom comportamento não diminui a pena. Aparentemente é o contrário que faz efeito. Por isso, está decidido: a partir de hoje vou surtar todos os dias. Quem sabe assim a cidade me dá um pé na bunda e me liberta dessa prisão que é viver na indecisão.
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