A Austrália passou maus bocados com a crise financeira mundial. Trabalhadores perderam seus empregos, empresas fecharam suas portas e os dólares australianos – que ganho a sangue, suor e lágrimas – perderam valor no mercado global e no mercadinho na esquina da minha casa.
Em maio desse ano, uma emissora de televisão iniciou uma campanha contra a crise, argumentando que, apesar do momento desfavorável, haviam vários motivos para os australianos ficarem otimistas com relação à situação econômica do país. O medo geral era que as pessoas parassem de comprar o que na verdade não precisam e, assim, esculhambassem a lógica do ciclo consumista.
Uma das estratégias criadas pelo canal 7 para evitar que isso acontecesse foi pedir a ajuda dos “reject the recession dancers”, algo como dançarinos rejeitadores da recessão. Stay positive… reject the recession! You know that life is really good. Reject the recession! Come on, let’s make it understood… dizia a letra da música, enquanto quatro dançarinos exibiam uma coreografia tecno-funk-hip-hop em um dos programas da emissora, no intúito de ajudar a manter a economia australiana movimentada.
E funcionou! Os australianos concluíram que era melhor fazer a sua parte e ir às compras antes que o país entrasse em recessão. Eles ficaram assustados que as músicas e coreografias que seriam criadas para tirar o país do buraco desencadeasse uma outra crise ainda mais preocupante: uma crise nervosa nos telespectadores.
O governo australiano depositou hoje 900 dólares na minha conta, parte do plano de incentivo à movimentação da economia. Muitos ficaram na dúvida se mesmo estudantes internacionais e estrangeiros com visto de trabalho receberiam o dinheiro. Mas diante dos olhos do Tax Office (Receita Federal), somos todos considerados residentes quando o assunto é pagamento de impostos.
Mesmo não tendo direito a benefício nenhum, como por exemplo acesso ao serviço de saúde pública ou seguro desemprego, pagamos impostos como qualquer cidadão australiano. Nada mais justo do que sermos incluídos no plano de incentivo à economia.
Além de pagar impostos, estudantes internacionais injetaram grande parte dos 15.5 bilhões de dólares no setor de educação, só em 2008. Educação é o terceiro maior produto de exportação da Austrália, atrás apenas de minério de ferro e carvão. Muitos brasileiros são consumidores fiéis desse produto, ainda que as vezes ele venha com defeito de fábrica. É bom começarem a nos paparicar mesmo porque senão a gente vai levar nossos 900 dólares para gastar em outra freguesia.
O restaurante Sobo Bistro, em Bondi Beach, implantou um sistema de pagamento onde os clientes decidem o quanto querem pagar pela comida. Um cardápio sem preços é distribuído e ao lado de cada item há um espaço para se escrever o valor que se deseja pagar pelo prato.
Mr Gerondis, o dono do restaurante, disse que se inspirou na banda britânica Radiohead, que lançou um álbum na Internet e permitiu que os compradores pagassem o valor que consideravam adequado. A idéia é que os clientes saiam do restaurante com a sensação de que pagaram um preço justo pela refeição. Se gostaram pagam mais, se não gostaram pagam menos.
O conceito atraiu novos fregueses e Mr Gerondis está bem faceiro com os resultados. A maioria das pessoas entra no espírito e paga um valor bem próximo ou até maior do que os preços sugeridos pelo cardápio original, deixado na mesa como um guia de referência. Mas lógico que sempre tem os pão-duros de plantão.
Recentemente 3 garotas pediram dois pratos cada uma e pagaram 85 centavos por cabeça. O dono do restaurante, curioso, perguntou se elas não gostaram da comida. Elas disseram que sim, mas que não achavam que a refeição era melhor do que o CD do Radiohead, que elas compraram por apenas 1 dólar.
Estima-se que os australianos gastaram 1.13 bilhões de dólares com prostitutas e strippers no ano passado. Para esse ano, apesar da crise financeira mundial, a indústria do sexo tem previsão de crescer 8.1%.
Um dono de bordel afirmou que seu negócio, lado a lado com tabaco e álcool, faz parte da lista de produtos e serviços que mantém seu nível de consumo forte independentemente da movimentação da economia. Ele acredita que uma visita ao seu estabelecimento oferece uma ótima relação custo-benefício.
Defende a idéia de que quem vai ao pub ou nightclub gasta muito mais com bebidas, jantares, taxis etc, e não há garantia nenhuma de que vá rolar sexo. “Se você vai ao bordel é garantido. Talvez você tenha que esperar na fila, mas é certo que você vai ir para cama com a garota que escolher”.
Como a concorrência é grande, tem puteiro oferecendo até cupom que dá 20 centavos de desconto por litro de gasolina. Muitos pais de família já estão usando isso como evidência para demonstrar seus esforços em economizar durante a crise.
A Austrália está fazendo o que pode para não acabar no buraco em que muitos países caíram por causa da crise financeira mundial. No próximo mês, por exemplo, as contas bancárias dos trabalhadores receberão beijinhos e afagos do governo australiano.
Aqueles que ganharam um salário de menos de 100 mil dólares no ano passado, receberão um depósito de até 900 dólares. Fazendo a conta por baixo, isso significa que qualquer pessoa que ganhou menos de 13 mil reais POR MÊS tem direito ao estímulo, que pretende manter a economia quentinha durante o outono.
O pacote de 42 bilhões de dólares australianos também inclui ajuda à fazendeiros em apuros, donos de pequenas empresas, famílias e estudantes, além de investimentos sociais e em infra-estrutura. O governo já distribuiu em outubro do ano passado 10.4 bilhões com o mesmo objetivo.
Entre os beneficiados estavam os compradores da primeira casa própria e famílias de baixa e média renda. Consumismo aqui virou manifestação patriótica. O único jeito de salvar a nação é torrando até o último tostão.