(fevereiro 2009)
Será que Sidney é mais gostosa que Porto Alegre?
- O estado de New South Wales, onde Sidney é capital, está em recessão. É a crise financeira mundial batendo na minha porta. Capitalismo é bem bom quando se tem dinheiro para usar de confete e quando os mercados estão sambando com a bunda e as tetas de fora. Agora amanheceu, a festa acabou, o mundo entrou em crise e muita gente foi pega de surpresa. É meio como uma dondoca que leva um pé na bunda do marido rico porque ele arrumou uma burra mais jovem. De volta na sarjeta, a pateta se esforça para entender porque o casamento acabou. Acabou porque seu ciclo de vida no mercado atingiu o estágio de declínio, minha filha. Ou talvez você ainda não esteja em decadência, mas foi trocada simplesmente porque a nova namorada é muito mais gostosa.
- Sidney é a décima quinta cidade mais cara do mundo para se viver e isso é visível no quanto se gasta em moradia. Estudantes internacionais geralmente optam por ficar em casa de família, em acomodação dividia/alugada ou acomodação universitária. Preços variam de 100 à 300 dólares por semana, sendo possível achar algo mais barato, fedido e super-populoso ou mais caro, perfumado e com alguns metros quadrados desocupados. Privacidade em Sidney custa caro.
- Uma casa, no sentido mais amplo da palavra, funciona como um país. Tem sistema econômico, político e social que se susteta de práticas individuais e coletivas. Aqui em Sidney eu identifiquei 4 tipos. 1. Casa Capitalista: indivíduo com grana aluga casa/apartamento com vários quartos e subloca camas individualmente por valores que, quando somados, lhe geram lucro. Quem manda na casa é o locatário e ele estabelce as regras e normas de conduta. Cada um compra sua própria comida, que é adesivada com o nome do seu proprietário, uma forma educada de dizer “não coma porque fui eu quem comprou”. Mesmo assim ninguém respeita e come as coisas dos outros escondido. Todo mundo fala mal de todo mundo, mas todos fingem adorar o clima de república nas áreas comuns. 2. Casa Comunista: um grupo de 3 à 5 pessoas, com a falta de dinheiro em comum, jutam suas misérias para alugar um apartamento de um quarto. As políticas de convivência são definidas democraticamente por todos numa reunião-almoço onde o prato principal é miojo. Tudo é dividido. Se alguém comprar algo para a casa que custa 50 centavos, é dever moral dos outros oferecer as moedas correspondentes ao seu percentual. O clima é de big brother e manifestações de egoísmo e individualidade são repudiadas. 3. Casa Socialista: duas ou mais pessoas com afinidade de personalidades alugam uma casa. As regras de convivência são estabelecidas pelo bom senso e eventuais desentendimentos são conversados quando acontecem. Fazem compras ora separados, ora juntos, mas não há um clima “esse é meu, esse é teu”. Todos são amigos próximos e o clima é de um episódio do seriado Friends. 4. Casa Ararquista: dois ou mais estudantes de ciências sociais alugam uma casa. Ninguém tem seu próprio quarto. Quem chegar primeiro em casa tem o direito de escolher onde quer dormir naquela noite. A comida é rateada e cada um põe a grana que pode para despesas de supermercado. Sempre tem um que gosta de cozinhar que prepara um panelão por dia, que rende duas refeições cada um. Todo mundo se come num clima woodstock ao som da trilha sonora de Hair.
- Muitos se imbuem de um inesperado espírito comunitário quando descobrem o quanto podem economizar morando com um grupo grande de pessoas. Tudo é muito bacana e divertido até que acontece a traumática experiência da invasão cultural do espaço individual. Alguns dos conceitos básicos de convivência em grupo, que parecem naturais e óbvios, aparecem em suas versões estrangeiras exóticas. Organização, higiêne e educação se tornam mais subjetivos que espetáculo de dança contemporânea. São pequenos sequestro-relâmpagos da individualidade onde o resgate só pode ser pago com muita paciência e negociação. E o que parecia barato de repente vira barata.
- Respeito diferenças culturais e exercito minha curisidade antropológica até o momento em que sujeira e odores corporais entram na jogada. Tem muito relaxado que usa cultura como desculpa pra impor sua personalidade fedida. Dá licença, mas banho e desodorante não são hábitos negociáveis.
- A lenda de que se acha móveis e eletrodomésticos nas ruas em Sidney é totalmente verdadeira. Geladeira, fogão, microondas, tv, microsystem, dvd, sofá, estante, colchão… tudo pode estar numa esquina perto de você. Assim, mobiliar a casa em Sidney fica fácil e barato, em especial se você não liga se o sofá marron-abacate-vencido não combina com o tapete bege-albino-com-dermatite da sua casa.
- Em 2008 o jornal Sydney Morning Herald elegeu Bronte o melhor bairro para se morar em Sidney. Apesar dos boatos de que o campeão transou com alguns dos jurados para ganhar o título, o grande público concorda com a escolha. Os ótimos cafés, a proximidade do centro da cidade, o fácil acesso a transporte público e, lógico, a praia, são os principais atributos do bairro. O preço médio de uma casa na região é de quase 1 milhão e 800 dólares australianos (quase 3 milhões de reais).
- Bronte não é nem de longe o bairro mais caro de Sidney. O campeão dos preços altos, que tem casas com o valor médio de 5,3 milhões de dólares australianos (quase 9 milhões de reais), é Point Piper. Na matemática do mercado imobiliário, os números aumentam quanto mais perto a propriedade estiver do mar. Essa lógica talvez mude com os níveis dos oceanos aumentando por causa do aquecimento global.
- Sidney tem 641 bairros. Há grande variedade de tamanhos, cores e sabores para todas as idades e nacionalidades. Como a cidade recebeu imigração em massa há algumas décadas atrás, as comunidades de diferentes países se concentraram em subúrbios específicos. Portugueses em Petersham, Chineses em Ashfield, Libaneses em Bankstown e Brasileiros em Bondi, Manly e onde mais tiver praia.
- Tem tanta gente procurando acomodação em Sidney que o processo de visita à uma propriedade funciona assim: a imobiliária anuncia no jornal o dia e hora em que a propriedade estará aberta para inspeção. Na data e horário marcados, o local fica aberto à visitação por 15 minutos e todos os interessados dispõem apenas desse tempo para avaliar a propriedade. Quem gostou preenche um formulário dando referências de ex-locatários, mostra contra-cheques comprovando renda e, em certos casos, até paga uma semana de aluguel para mostrar que realmente está interessado. O locador, como num “quer namorar comigo imobiliário”, escolhe o locatário que achar mais interessante.
- Para impressionar meu locatário, que estava presente no dia da inspeção, e me posicionar na frente dos outros pretendentes ao apartamento em que moro hoje, eu disse que trabalhava no maior banco de investimentos da Austrália, o que não é mentira. O fato de que sou apenas um garçon é apenas um detalhe que nunca foi mencionado. Sempre que ele me vê, faz comentário sobre o mercado financeiro e me pergunta como as ações do meu banco estão se movimentando durante esse período de crise. Eu sorrio e digo que tudo que pode ser dito está nos jornais. Ele sacode a cabeça e diz que entende que eu não possa fazer comentários em um momento delicado como esse.
- Morei em apenas duas cidades diferentes até hoje. Uma morre de ciúmes da outra. Porto Alegre é minha ex, que vive criticando a atual sem nem a conhecer. Chama ela de “gringa ridícula acerebrada”. Já Sidney morre de medo que eu à abandone e volte para quem ela chama de “aquela prendinha mocoronga com praias de lagoa”. Eu amo as duas, mas nehuma acredita. Voltei de férias do Brasil semana passada e contei pra Sidney que foi ótimo reencontrar Porto Alegre e ver que ela está feliz. Já na hora levei vários tapas na cara e fui chutado para dormir no sofá até segunda ordem. Inseguranças de principiante. Sou apaixonado por Sidney e já provei que nosso relacionamento é sério quando aceitei morar junto. Apesar de ser uma cidade insegura, ela sabe que seu ciclo de vida se encontra em pleno crescimento. Mesmo assim, o medo de ser trocada ficou mais real e possível quando ela viu nas fotos que Porto Alegre está ficando, a cada dia, muito mais gostosa.
