História

(julho 2008)

O que prende os brasileiros em Sidney?

- Dois leoninos juntos é uma combinação explosiva. Essa é uma das poucas verdades esotéricas em que acredito. Quando decidi vir morar na Austrália, há mais de dois anos atrás, não sabia que Sidney era de leão. Isso ficou claro já no nosso primeiro encontro. A cidade chegou exuberante, usando um vestido decotado valorizando as praias e os pontos turísticos. Antes mesmo de se apresentar, ela se aproximou confiante e sussurrou no meu ouvido em tom provocativo obscenidades inimagináveis, coisas que ninguém espera ouvir de alguém que recém conheceu. Um legítimo convite VIP à luxúria. Não acredito em amor à primeira vista, pensei, mas quem sabe uma exceção à regra é o que preciso?! Então aceitei o convite e pequei. Como conseqüência, fui condenado a viver esse romance com Sidney até que eu desvende os seus porquês. É como uma versão pós-moderna do enigma da esfinge: decifra-me ou te devoro em ritmo fast-food, te vomito, faço um vídeo e coloco no youtube. Bom comportamento não diminui a pena. Aparentemente é o contrário que faz efeito. Por isso, está decidido: a partir de hoje vou surtar todos os dias. Quem sabe assim a cidade me dá um pé na bunda e me liberta dessa prisão que é viver na indecisão.

- Nada é por acaso. Nem você aí, nem eu aqui, nem os brasileiros vindo em bando para a Austrália. Em 2006 foram mais de 9 mil. Não achei estatísticas de 2008 porque eles já devem ter perdido a conta. Com certeza essa migração em massa tem alguma coisa a ver com o fato de os dois países já terem sido vizinhos de continente. Na época da pangéia, quando nosso querido planeta era formado por um único bloco de terra há milhões de anos atrás, Brasil e Austrália não eram tão distantes. Daria até para pegar um ônibus pinga-pinga de Porto Alegre para Sidney, com paradas na África, para uma sopa de elefante no almoço, e na Antártica, para um rodízio de pingüim no jantar. Isso tudo se você acredita em geografia.

- O Australia Day (dia da Austrália, em tradução óbvia e desnecessária) é um bom ponto de partida para se entender esse lugar. Nesse dia se comemora a data em que os britânicos chegaram em Sidney para ficar. Não confunda com o descobrimento do país. Dia 26 de janeiro foi o dia da mudança, dia em que os europeus estacionaram suas perucas imperiais na Oceania. Mas a grande ilha perdida no pacífico não virou casa de praia do rei. O Capitão Arthur Phillip veio para transformar Sidney em colônia penal, uma espécie de big brother compulsório para criminosos. A idéia era esvaziar as cadeias superlotadas da Inglaterra mandando alguns dos prisioneiros para cá e dar uma oportunidade para essas pessoas de reputação duvidosa começarem uma vida nova. Quem completava sua pena, ganhava terra para plantio. E foi assim, como num conto de fadas rural, que começou a expansão do continente.

- Grande erro estratégico fazer da Austrália um campo de prisão. Os britânicos deviam ter se mudado para cá e enjaulado seus prisioneiros na Inglaterra. Quer castigo maior do que o clima de lá?!

- A primeira frota de navios britânicos vindo para Austrália fez escala no Rio de Janeiro para pegar comida. Parece que a feijoada não caiu bem e que eles tiveram que parar numa lojinha de conveniência no meio do oceano Índico para comprar papel higiênico.

- O site Convicts to Australia tem todos os nomes dos prisioneiros que foram mandados para cá. Dá para fazer buscas pelo nome do navio e ano da chegada. Quem tem parentes australianos pode procurar pelo sobrenome e ver se eles têm antepassado safadinhos.

- Antes da Revolução Americana, quando as colônias se uniram e lutaram por independência e pela criação de Hollywood, era para os Estados Unidos que os britânicos mandavam seus prisioneiros. Se a revolução tivesse acontecido alguns anos antes, vários americanos seriam hoje australianos e, quem sabe, o Mickey Mouse seria um canguru.

- A independência da Austrália foi bem diferente e já dava sinais da cultura local. Não teve guerra, revolução ou queimada de sutiãs. Foi um processo democrático, debatido e consentido. Tudo politicamente correto.

- Quem descobriu a Austrália? Pasme, os portugueses! A estátua no Hyde Park é do Capitão britânico James Cook, que chegou aqui em 1770. Mas encontraram recentemente em uma biblioteca de Los Angeles uma carta náutica que mapeia com precisão detalhes geográficos da costa leste da Austrália em português, pois pois. Segundo o livro Beyond Capricorn (algo como Além do /trópico de/ Capricórnio) Cristóvão de Mendonça liderou uma frota de 4 navios que passaram por aqui em 1522. A teoria do autor Peter Trickett também se apóia no fato de que foram encontrados artefatos portugueses do século 16 na costa do país, incluindo um cd do Roberto Leal.

- Se os portugueses tivessem colonizado a Austrália, o Brasil seria seu irmão mais velho ciumento e ressentido que tem certeza que foi adotado.

- Muitos dos prisioneiros trazidos para Austrália, mesmo os que cometeram pequenos crimes, tiveram suas penas transformadas em prisão perpétua. Eles foram condenados a viver nesse país-continente deixando para trás toda a vida que tinham construído até então. Para muitos brasileiros que moram em Sidney, não são barras de ferro, muros altos ou algemas que impedem a volta para o Brasil. O que nos prende aqui é a dúvida de onde é o nosso lugar no mundo. E se aguardar o momento certo para tomar uma decisão é inevitável, melhor esperar ganhando em dólares.

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