Comida

(junho 2009)

O que a felicidade das galinhas tem a ver com sua saúde?

- Se eu tivesse escolha, comeria apenas algumas poucas vezes por semana. Nunca tive paciência com comida, nem para comer e muito menos para cozinhar. Há sempre outras prioridades na minha agenda. Parece absurdo e sensacionalista, mas houve dias em que fiz uma refeição e simplesmente esqueci das outras. Fui lembrado que era hora de comer novamente por uma fraqueza nas pernas ou uma dor de cabeça. Não gosto da idéia de investir meu tempo em algo que acaba sendo descartado horas depois em uma privada qualquer. Para economizar energia nesse processo, criei um grupo seleto de comidas favoritas. Meus amigos debocham dizendo que tenho paladar infantil, que só gosto de sabores divertidos e fáceis de entender. Há não muito tempo atrás eu só comia quando estava morrendo de fome e só bebia quando estava morrendo de sede. Isso ainda acontece de vez em quando, mas estou me esforçando para mudar. Um dia Sidney comentou que quem chega nesses extremos pode estar sofrendo de anorexia existencial. Sorte que o meu caso é bem mais simples. Meu apetite, quando se sente solitário, só funciona no modo de emergência.

- No horário de almoço, Sidney se transforma na cidade dos sanduíches. Essa é a refeição mais popular no intervalo do meio-dia. Numa pesquisa antropológica de método aleatório, observei atentamente durante meses uma praça de alimentação no CBD (centro comercial) e eis minha conclusão geral. As pessoas comem sanduíche porque são (ou querem parecer) super ocupadas. Tão ocupadas que não têm tempo para sentar em um restaurante, ler cardápio, fazer pedido, esperar até receber o prato, comer e pagar a conta. Isso é coisa de quem não tem mais o que fazer. Aliás, comprar qualquer refeição que leve mais de um minutos para ficar pronta é coisa de desocupado, de alguém que provavelmente não é bem-sucedido na profissão. Quem não come sanduíche é, então, taxado de pouco importante e é olhado com desprezo pelos profissionais de sucesso, que caminham a passos largos de volta para o escritório para comer seu almoço na frente do computador.

- A refeição do dia considerada a mais importante é a janta e aí a sociologia é outra. Comer sanduíche a noite é coisa de pobre. E só é pobre quem é mal-sucedido na profissão. Bacana é sair para jantar em restaurante de culinária étnica. Não faltam opções. O grande fluxo migratório que ocorreu no país no final do século 20 contribuiu para a incorporação na cozinha australiana de sabores de várias partes do mundo, em especial da Ásia. Comida chinesa, indiana, vietnamita e tailandesa estão entre as opções mais populares. Comida italiana, grega e turca são também bem fáceis de encontrar.

- Aquela cebola gigante que é garota-propaganda conhecida do restaurante Outback não é e nunca foi prato típico da Austrália. É tudo invenção da rede de restaurantes que, aliás, é americana.

- Eis algumas das receitas australianas clássicas com uma breve descrição e um comentário aleatório. Meat Pie (torta de carne): Uma espécie de mini quiche. Delícia, principalmente acompanhada de quéti-chupi. Pavlova (torta de merengue): Boa, mas enjoativa. Aceite somente um pedaço pequeno. Hedgehog (carne de um bichinho pequenininho e peludinho): Olha o animalzinho e me diz se você teria coragem de comer. Scones (tipo de pão fácil e rápido de assar): Imperdível com manteiga ou geléia. Anzac Biscuits (biscoito de coco): Desaconselháveis para quem tem dentes frágeis por ser duro demais. Textura de pedra-pome desgastada. Lamington (pão de ló cortado em quadrados mergulhado em chocolate derretido com açúcar e coberto por coco ralado): É bom, mas soa mais saboroso do que é. Vegemite (condimento pastoso que se coloca geralmente em sanduíches): Esse não é receita, é produto que se compra em supermercado. Australiano de verdade adora.Tem gosto de folha de árvore queimada, com excesso de sal.

- Canguru, crocodilo e wallaby ainda são consideradas carnes exóticas mesmo aqui. Só experimentei a primeira e achei o sabor facilmente confundível com carne de boi.

- Enquanto saboreava carne de canguru pela primeira vez, fiquei pensando que é meio estranho e até mesmo desrespeitoso os australianos comerem um dos símbolos que representa o país. É o mesmo que servir carne de mulata em um churrasco brasileiro. Not ok!

- O churrasco brasileiro está ficando cada vez mais popular em Sidney. Braza, Churrasco, Flavor of Brazil, Favela, Churras e Copacabana são os 6 restaurantes que eu conheço na cidade. O último oferece, ao final do jantar, um rodízio de mulatas-pra-gringo-ver dançando samba, lambada e salsa(!).

- Como o Oceano Pacífico é logo ali, frutos do mar são bastante populares em Sidney. Não é surpresa então que Fish and Chips (peixe com fritas) é um dos pratos clássicos da Austrália, herança dos colonizadores Ingleses. Vale fazer uma visita a um dos restaurantes próximos ao Fish Market para comer peixes recém pescados, com o sangue ainda correndo pelas veias.

- Pergunte para um australiano qual é seu prato favorito e todos vão responder que é cerveja. O povo daqui, se pudesse, diluiria comida numa garrafa de birita e beberia as recomendadas seis refeições ao dia. Não é por acaso que um dos lugares favoritos para se comer na Austrália é no Pub. É geralmente uma opção barata, bem servida e saborosa (em especial porque depois de beber algumas, tudo tem sabor de cerveja). Alguns estabelecimentos de auto-estima elevada diminuem o tamanho da porção, adicionam ao nome do prato expressões sobre o processo de preparação da refeição e se sentem no direito de cobrar o dobro do preço. Para quem quer pousar de chique, vale mais a pena ir a um restaurante de verdade, que vai oferecer um ambiente que combina melhor com nariz empinado. Pub é gritaria, beberragem e chinelagem.

- Os garçons de Sidney estão entre os mais qualificados do mundo. A indústria de turismo e hotelaria é uma das mais abertas e mais fáceis de arrumar um emprego, mesmo para quem não tem experiência nenhuma. Muitos imigrantes que vem tentar a vida no país usam essa oportunidade para entrar no mercado de trabalho. Mesmo tendo curso superior completo e experiência profissional na área, é comum encontrar em restaurantes, bares e hotéis bacharéis universitários com pós-graduação ou até mestrado trabalhando de garçon/garçonete. Você termina a refeição se sentindo mais inteligente.

- Até pouco tempo atrás eu não entendia o que motivava pessoas a pagarem fortunas em um restaurante por refeições de 10 centímetros de diâmetro. Conversando certa vez com meu vizinho de poltrona num avião, descobri que ele pensava o mesmo. Achava ridículo e sem sentido pagar mais para comer menos, ainda mais no horário de janta, quando ele normalmente já está morrendo de fome. Ele me contou que uma única vez levou a mulher para comemorar o aniversário em um desses restaurantes chiques. Como já esperava, saiu de lá com a sensação de que não tinha comido nada. Foi então até o Mc Donald’s e, em 5 minutos, estufou a cara de cheeseburger até ver o palhaço da peruca vermelha. Tendo em mente esse relato inspirador e meus quase 30 anos de experiências gastronômicas, cheguei à 6 conclusões definitivas: Um, se você chega ao ponto de estar morrendo de fome, é porque já deveria ter comido horas atrás. Dois, se você come nas horas certas, nunca vai precisar comer que nem um troglodita. Três, para se sentir satisfeito, não é preciso comer o máximo que o estômago comporta. Quatro, comer com pressa engorda, já que a mensagem de que comemos o suficiente leva de 15 à 20 minutos para viajar do estômago ao cérebro. Cinco, só é possível apreciar um restaurante caro quando se aprende a comer pelo sabor, não pela quantidade. Finalmente seis, não me surpreende que o cara sentado ao meu lado no avião não soubesse nada daquilo já que sua bunda estava ocupando metade do meu assento.

- Dados do Australian Bureau of Statistics revelaram que 62% da população australiana está obesa ou acima do peso. Talvez por isso programas como The Biggest Looser (competição entre gordinhos para ver quem perde mais peso) façam tanto sucesso. É motivador ver alguém com um problema parecido com o seu se esforçando para mudar. Pena que só assistir a outras pessoas se exercitando não emagrece.

- A refeição mais cara que eu já comi foi no restaurante Felix, em Hong Kong. A conta deu 500 dólares australianos para duas pessoas (uns 750 reais). Foi um jantar inesquecível, provavelmente a refeição mais deliciosa e memorável que já fiz. E não há nada que torne uma comida tão saborosa quanto ter alguém para pagar a conta.

- Uma pesquisa revelou que 30% das mulheres australianas preferem um jantar romântico ao invés de sexo. Uma pesquisa paralela revelou que 100% dos homens não se opõem a sair para um jantar romântico, contanto que haja sexo no final.

- Nunca tive paciência para cozinhar. Achava mais prático comprar uma refeição que se preparasse sozinha em 3 minutos no microondas. Um dia me alertaram que se dois ou mais ingredientes desses almoços congelados soassem mais como equações químicas do que como comida, eu deveria repensar minha escolha. Passei a fazer compras no supermercado com olhos mais atentos. Faço agora análise minuciosa dos produtos que compro. Meu controle de qualidade não mais se baseia em facilidade e rapidez de preparo. Qualidade nutricional é agora prioridade.

- Uma nova geladeira se abriu diante dos meus olhos quando decidi investir mais tempo na seleção de alimentos. Um pouquinho de informação e uma pequena dose de filosofia de supermercado abriu meus horizontes culinários de modo sem precedentes. Nunca tinha parado para pensar, por exemplo, que os ovos das galinhas criadas soltas são diferentes dos ovos das galinhas criadas em presídios aviários. E não para por aí. Se elas comem milho ou trigo, se assistem filmes do David Lynch ou do Woody Allen, se lêem Freud ou Jung, se vestem Gucci ou Prada. Tudo isso influencia na qualidade dos ovos que elas vão botar e no jeitinho que elas vão chocar. Foi para mim grande surpresa descobrir que a felicidade das galinhas influencia no sabor do meu omelete. Agora pegue esse conceito do estilo de vida que os alimentos tiveram antes de chegar ao seu prato e aplique em todo o reino animal e vegetal que você consome todos os dias em suas refeições. Pense no seu estômago tentando digerir uma alface maníaco-depressiva. Considere o trabalho que dá mastigar o lombo de um porco estressado com a crise financeira mundial. Imagine que sabor tem o leite de uma vaca que adora assistir o programa do João Kleber. Todas as minhas indigestões e diarréias agora fazem sentido.

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